segunda-feira, 30 de abril de 2012

É loucura!

"É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim, um recomeço."
- O Pequeno Príncipe -



Davi e João Pedro no IPad jogando...

3 dicas simples:


O lugar de Deus na saúde e na doença


Todos perdem quando a religiosidade dos pacientes é ignorada pelos médicos.

 Apenas 1% dos brasileiros não acredita em Deus. Foi o que revelou o Datafolha em 2007, numa ampla pesquisa usada até hoje como indicador da fé, uma das características mais marcantes da nossa população. O que acontece com a religiosidade dos outros 99% quando precisam de um hospital? 
É ignorada placidamente.

Com raríssimas exceções, os profissionais de saúde não levam em consideração o papel das crenças na vida dos pacientes. Deveriam. É no hospital, mais que em qualquer outro lugar, que o doente entra em contato com sua fragilidade e busca apoio na fé. A religiosidade e a espiritualidade não são dados irrelevantes para a recuperação e para o bem-estar do paciente – mesmo quando a recuperação não é possível.

Tão importante quanto saber se o sujeito tem diabetes, hipertensão ou o vírus HIV é reservar um momento para levantar informações sobre sua espiritualidade. Com o objetivo de entender a participação dessas crenças na saúde e na doença. Sem julgar ou tentar modificar a existência ou a falta delas.
Isso raramente é feito no Brasil, mas há um movimento entre os profissionais de saúde (crescente, mas ainda pouco conhecido) que defende a inclusão no prontuário médico da história espiritual do paciente. Dessa forma, ela seria levada a sério e ficaria documentada – de uma forma acessível a qualquer profissional do hospital que tivesse contato com o doente.
A maioria dos pacientes deseja receber mais apoio espiritual durante o tratamento. É o que alguns estudos começam a demonstrar. Durante seu mestrado, a enfermeira oncológica Carolina da Cunha Fernandes decidiu investigar a visão dos pacientes do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo.
Foram entrevistados 75 homens entre 48 e 79 anos com diagnóstico de câncer de próstata. E 75 mulheres entre 31 e 83 anos em tratamento de câncer de mama. Outras 150 pessoas compuseram o grupo controle. Eram cidadãos que participavam de atividades do hospital mas não tinham a doença.
Os resultados dão a dimensão do problema. A maioria (97% dos homens e 86% das mulheres) não haviam conversado sobre suas crenças religiosas ou espirituais com algum profissional da saúde. A maioria gostaria que esse momento tivesse existido (57% dos homens e 53% das mulheres).
Ainda mais interessante: 61% das mulheres e 60% dos homens afirmaram que poderiam ter se sentido melhor ou mais dispostos para o tratamento se tivessem recebido cuidado religioso ou espiritual dos profissionais de saúde.
Esses dados despertam várias reflexões: médicos, enfermeiros e demais trabalhadores dos hospitais deveriam assumir mais essa responsabilidade? Eles vivem assoberbados. São muitos os pacientes a atender, muitos os protocolos e os processos a cumprir, muita papelada a preencher, quase nenhum tempo para olhar nos olhos e conversar.
Outra questão é saber de que forma os médicos poderiam dar conta dessa demanda por cuidado religioso. Médico é médico. Não é líder religioso. A solução parece estar no bom senso. Em primeiro lugar é preciso diferenciar religiosidade e espiritualidade. A religiosidade tem relação com um conjunto de crenças bem estabelecidas e compartilhada com um grupo. A espiritualidade é particular e subjetiva. É, por exemplo, a busca por um sentido na vida.
A espiritualidade vai além da religião. Discuti esse aspecto em outra coluna. No fim da vida, um ateu também tem suas necessidades espirituais. Pode questionar suas ações, seu legado para a humanidade, seu papel nesse mundo. O médico que é capaz de percebê-las e respeitá-las é mais que um profissional. É gente de primeira grandeza.
Neste aspecto da vida, os profissionais da saúde podem fazer muito pelo paciente. Podem, por exemplo, liberar a entrada de um grupo de orações ou avisar um líder religioso que o paciente gostaria de vê-lo. “É preciso agir com flexibilidade”, diz Carolina.
Há ações muito singelas, mas nem por isso menos importantes. “Certa vez uma paciente perguntou se podia colocar água benta nas mãos da enfermeira que ia instalar a bolsa da quimioterapia”, diz Carolina. Outra paciente faz questão de colar um santinho na bolsa de quimioterapia antes da infusão. “Respeitar as crenças e os hábitos pode fazer uma diferença muito grande. Não temos o direito de tirar a esperança de ninguém.”
As razões humanitárias já seriam suficientes para justificar a adoção de ações simples como essas. Mas há outras, de ordem fisiológica. Vários estudos tem demonstrado como algumas práticas religiosas atuam no cérebro e repercutem sobre os hormônios, sobre o sistema cardiovascular e sobre o sistema imune (o que é extremamente importante para quem enfrenta um câncer).
Pessoas que oram ou praticam meditação parecem lidar melhor com o stress. Os níveis de cortisol (o hormônio do stress) diminuem. Assim como a pressão arterial e a frequência cardíaca.
Outras pesquisas demonstram que participar de um grupo religioso – seja ele católico, budista, judeu, evangélico, umbandista ou qualquer outro – traz benefícios por aumentar o suporte social ao indivíduo. O apoio social é extremamente valioso não apenas para os doentes. É um ingrediente fundamental para a sobrevivência e a longevidade.
Com pequenos gestos, médicos, enfermeiros e toda a constelação de profissionais que fazem um hospital funcionar podem garantir dias melhores aos doentes que têm necessidades religiosas. Devem trabalhar para isso, de coração aberto, mas sem desprezar ou incomodar os que não têm fé.
Eles são apenas 1%, mas existem. Merecem tanto respeito quanto os que creem.

Morrer em Rede

Entenda como será a sua vida póstuma nas redes sociais – se elas sobreviverem a você!        


Até pouco tempo atrás, eu costumava dizer que tinha a vida eterna para descansar. Não passava de uma forma de desculpar minha compulsão pelo movimento, a incurável hiperatividade que muitos confundem com competência e amor pelo trabalho, mas não passa de um transtorno (felizmente, devo ser o único jornalista transtornado no mundo). Mas agora nem isso eu tenho mais a declarar, pois já sei que nem mesmo na eternidade haverá meios de repouso porque tudo o que eu fui durante a vida – uma quantidade limitada de informações que devem caber em um pen drive de 4 Gigabytes, se muito – permanecerá armazenado no imenso banco de memória digital da civilização conhecido como internet. Não só a minha improvável contribuição à humanidade, que deveria figurar nos textos que redigi, como também as maiores bobagens que eu afirmei em bate-papos e e-mails, as gafes ou acertos na carreira, as imagens que registrei.
A era digital ensina dura lição: a vida é uma errata do princípio ao fim (o crítico George Steiner aprendeu-a em 1997, ao intitular seu livro de memórias de Errata). Uma errata que não corrige nada, pois os dias vividos não podem ser alterados, salvo por meio de artifícios como a linha do tempo do Facebook. Ela organiza para você dados que talvez você não queira ver organizados. Quando o sujeito sair de cena e não estiver mais aqui para se defender, tudo estará dito, e em seu lugar, inclusive com correções e reescrituras de sua história.
Em uma entrevista que fiz com o compositor americano John Cage (1912-1992) três anos antes de sua morte, ele disse uma frase que na época me soou estranha: “Ninguém mais vai morrer, por causa de tecnologia.” Parecia um enigma zen budista, mas só agora entendo o que Cage falou. A tecnologia nos tornou eternos. Nossas imagens vão pairar para sempre por aí. Ainda não inventaram um modo de manter nossos corpos e o que eles carregam dentro, a que muitos chamam alma. Talvez os corpos-almas não sejam tão importantes assim. Importa é se e como estão registrados pelos meios técnicos. Assim, aquilo que chamávamos antigamente de mortos não descansam mais em paz na era digital. De alguma maneira, encontram-se insepultos. Suas emanações assombram o dia a dia dos ainda viventes.
Vou tentar explicar essa eternidade artificial com exemplos. As redes sociais trazem os melhores casos. Os mortos antigos pelo menos pediam inscrições nas lápides de seus túmulos, e em geral eram atendidos. Os atuais não têm nem mesmo tal direito. A posteridade deles nas redes sociais se multiplicou em inscrições, como se lápides constituíssem dízimas periódicas de tributos, que tendem a um só tempo ao infinito e à desimportância.
Não estou falando das celebridades vítimas dos fãs que se apossam de suas imagens, obra e nomes, mais ou menos como o produtor Dr. Dre faz agora com o rapper Tupac, assassinado em 1996. Dr. Dre age em nome do falecido, transformando-o em um holograma manipulável programado por computador, que deve sair em turnê em breve. São parecidos os casos dos perfis de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, presas dos invasores de suas memórias, verdadeiros vampiros literários. Penso, sim, nos cidadãos comuns.Um número incalculável de integrantes de redes sociais já morreu. Obviamente, o próximo poderá ser você, eu, qualquer um. Examinar a morte em rede de conhecidos pode ser elucidativo – é como se sentir morto por antecipação. Muitos amigos que se foram continuam com os perfis no Facebook, como se estivessem vivos, sorridentes, cheios de relacionamento  - e ainda consumindo produtos oferecidos pelos sites. Outros espectros aparecem como sugestão de amizade no item "gente que você deve conhecer". 
Quando a pessoa morre (já fui avisado da morte de amigos por Facebook, Orkut, Twitter), sua desencarnação digital nas redes sociais observa seis passos fundamentais. O primeiro é uma agitação nervosa por parte dos amigos. Todos querem saber como, quando, onde e por que aconteceu. Aí o perfil do recém-falecido se enche de trocas de informações. O passo seguinte está nos elogios. Gente curte o perfil do defunto, gente exalta suas virtudes - sim, basta morrer para virar santo. Depois dos tributos, acontece aquilo que eu denomino o velório on line: as pessoas conversam sobre o morto, lamentam-se, riem, contam piadas umas às outras. O bate-papo promete durar bem mais que os velórios off-line. Comparecem até carpideiras digitais, que se derramam em lágrimas de crocodilo. No quarto passo, o da mesa-branca, dão as caras aquelas pessoas que mandam mensagens diretamente ao morto, como se quisessem conversar com o espírito que poderia estar on line em algum lugar do paraíso – evidentemente, ele não responde. O próximo passo é o mais interessante. Ele pode ser definido como recordação coletiva. Antigos colegas, amigos, amores e parentes se reúnem no perfil do falecido com o objetivo de fazer um mutirão e reconstruir a sua vida por meio de fotos, vídeos, gravações, desenhos e manuscritos. Como em um quebra-cabeça grupal, aspectos desconhecidos da vida do sujeito emergem e provocam surpresas. Exemplo: fiquei sabendo que um velho amigo meu tinha sido campeão de futebol júnior no perfil dele. Fotos e episódios que eu não conhecia vieram à tona, para meu espanto. Por fim, as pessoas vão deixando ao deus-dará aquele triste perfil, que fica abandonado feito um túmulo real ignorado pelos entes queridos, que só exibe flores secas depositadas por quem já se esqueceu de voltar. Mas a foto do perfil continua a sorrir.
Entendo que celebrar, lembrar e contar a vida do morto, bem como bater papo com ele pode servir como consolação para muitas pessoas – além de ser uma forma de manter a memória viva daquele que foi embora. Mas eu não penso assim. A sensação de encontrar mortos vivos nas redes sociais me parece medonha. Tanto que já combinei com uma pessoa próxima que, caso eu morra sem querer, elimine imediatamente os meus perfis espalhados por aí. Eis aí uma lição da tecnologia da informação: morrer, tal qual viver, é uma banalidade. No entanto, essa banalidade se potencializa ainda mais nas redes sociais. Não parece existir maneira de restituir aos mortos o seu direito ao jazigo perpétuo. Lembrando Cage, ninguém mais vai viver ou morrer em paz, por causa da tecnologia.
Luís Antônio Giron - Revista Época.

domingo, 29 de abril de 2012

Recadinho pra vc!

Davi - 2 anos e 4 meses
Não existe maior bem do que fazer a felicidade de alguém.
Nem nada menos caro, nem mais fácil, pois que a felicidade é algo que se pode oferecer em gestos, e atenções. 
Se olhamos à nossa volta, percebemos que a carência humana está no fato das pessoas terem perdido os valores imateriais a favor dos materiais. 
Compra-se quase tudo em nossos dias...mas o bem ninguém compra. 
Compra-se até companhia, mas não a sinceridade. 
Compra-se conforto, mas não a paz de espírito, não a tranqüilidade, menos ainda a felicidade. Esta a gente oferece!                                                                                                                                 (Leticia Thompson)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Confiar um no outro, essencial para um amor maduro


Confiar um no outro, essencial para um amor maduro
:: Flávio Gikovate :: 

Amor implica depender, estar na mão da outra pessoa. Por isso, amar alguém que não nos transmite confiança é ser irresponsável para consigo mesmo.

Poucos são os casais que vivem em concórdia, num relacionamento que crie condições para que ambos cresçam emocional e intelectualmente. Mas, porque existem alguns casais que vivem em harmonia, devemos nos empenhar para também fazermos parte dessa minoria privilegiada. Hoje quero me dedicar a um aspecto essencial das boas relações amorosas que é o desenvolvimento da confiança recíproca. Amar implica depender, estar na mão de outra pessoa. Ela tem, mais do que ninguém, o poder de nos fazer sofrer. Basta querer nos magoar que conseguirá isso, com uma simples palavra ou gesto. Se quiser nos fazer sentir insegurança, não terá problema algum. Fica mais do que evidente que, quando uma pessoa ama alguém que não se empenha em despertar a sensação de confiança e de lealdade, ela irá padecer muito. Irá se sentir permanentemente ameaçada, terá ciúme de tudo e de todos. Amar alguém que não nos passa confiança é, pois, uma irresponsabilidade para consigo mesmo. É uma ousadia, uma ingenuidade e uma grande demonstração de imaturidade emocional - ou sinal de que se tem satisfação com o sofrimento.

Em geral as pessoas se colocam nessa condição em virtude de terem se encantado com alguém que, de fato, não dá sinais de confiabilidade. Aceitam essa atitude egoísta do amado imaginando que seja uma fase, um período doloroso que irá passar com o tempo. Fazem tudo para demonstrar o seu amor, para cativar o outro e esperam que isso faça com que, finalmente, ele se renda, e também se entregue de corpo e alma à relação afetiva. Acaba se compondo uma espécie de desafio, em que aquele que não é confiável percebe que recebe mais atenções e carinho exatamente por agir dessa forma. Com isso se perpetua a situação e me parece bobagem achar que o futuro será diferente do presente. Afinal de contas, aquele que não se entrega ao amor, acaba sendo altamente recompensado por isso e não terá nenhuma tendência para alterar sua atitude.

Quando a mágica do encantamento amoroso não vem acompanhada da mágica da confiança, a pessoa está posta numa situação muito difícil, na qual o sofrimento e insegurança serão as emoções mais constantes. E essa mágica da confiança de onde vem? De vários fatores, sendo que o primeiro deles depende do comportamento da pessoa amada. Não é possível confiarmos numa pessoa que mente, a não ser que queiramos nos iludir e tentemos achar desculpas para não perder o encantamento por ela. Não é possível confiarmos em pessoas cujo comportamento não está de acordo com suas palavras e suas afirmações. Aliás, quando o discurso não combina com as atitudes, penso que devemos tomar essas últimas como expressão da verdadeira natureza da pessoa. Não é possível confiarmos em pessoas que mudam de opinião com a mesma velocidade com que mudamos de roupa. É evidente que todos nós, ao longo dos anos, atualizamos nossos pontos de vista. Porém, acreditar em certos conceitos num dia - na frente de certas pessoas - e defender conceitos opostos no outro - diante de outras pessoas - significa que não se tem opinião firme sobre nada e que se quer apenas estar de bem com todo mundo. Amar uma pessoa assim é, do ponto de vista da autopreservação, uma temeridade.

A capacidade de confiar depende também de como funciona o mundo interior daquele que ama e não apenas da forma de ser e de agir do amado. Não são raras as pessoas que não conseguem desenvolver a sensação de confiança em virtude de uma auto-estima muito baixa. Desconfiam da capacidade que têm de despertar e conservar o amor da outra pessoa; se sentem inseguras, acham que a qualquer momento podem ser trocadas por criaturas mais atraentes e ricas de encantos. E, o que é mais grave, se sentem assim mesmo quando recebem sinais constantes, coerentes e persistentes de lealdade por parte da pessoa amada. Nesses casos, não há o que essa criatura possa fazer para atenuar o desconforto daquelas, cuja única saída é um sério mergulho interior em busca de resgatar a auto-estima e a autoconfiança perdidas em algum lugar do passado.

Finalmente, para uma pessoa desenvolver a capacidade de confiar é necessário que ela seja uma criatura confiável. Costumamos avaliar as outras pessoas tomando por base nossa própria maneira de ser. Se nos sabemos mentirosos, capazes de deslealdade e de desrespeito aos outros, como ter certeza de que as outras pessoas não farão o mesmo conosco? Só aquele que tem firmeza interior, que tem confiança em si mesmo no sentido de respeitar as regras de conduta nas quais acredita, pode imaginar que existam pessoas em condições de agir da mesma forma. Se a felicidade sentimental depende do estabelecimento da confiança recíproca, ela será, pois, um privilégio das pessoas íntegras e de caráter.

Meu conselho:


A verdade sobre os `traumas´ de infância


A verdade sobre os `traumas´ de infância 
:: Flávio Gikovate :: 

As carências da vida adulta se devem a razões bem mais complexas que a falta de amor dos pais.

Não é minha intenção subestimar a importância das vivências infantis dolorosas na formação de sintomas chamados de neuróticos na vida adulta. Não gostaria, porém, de continuar a superestimá-los, como têm feito algumas das mais importantes correntes da psicologia contemporânea. A importância da infância na formação de nossas estruturas psíquicas é óbvia. Além de ser dependente, de ter o cérebro pronto para operar e receber informações do meio que a cerca, a criança possui uma intuição sofisticada, fruto da evolução incompleta da sua razão lógica - a razão, após estabelecer-se completamente, funciona como "camisa-de-força" para as operações psíquicas sensoriais.

O que me preocupa é a forma dedutiva de como muitos raciocinam sobre o tema. Observam, por exemplo, um adulto incapaz de ficar só e que busca com urgência qualquer tipo de vínculo afetivo. Ficam sabendo que ele teve uma mãe que lhe deu pouco carinho, pois vinha de uma família em que não era usual a manifestação física do afeto. Correlacionam os dois fatos e deduzem que, "lógico", esse adulto carente de afeto é produto de uma criança que teve menos amor que precisava.

Pode ser que seja "lógico", mas nem tudo que é lógico é verdadeiro. O que define a veracidade de uma afirmação é sua comprovação prática. Minha experiência clínica mostra que todos nós, adultos, somos carentes, inseguros e com grande dificuldade para estarmos sós, mesmo quando tivemos uma mãe amorosa.

Alguns de nós crescemos carentes porque tivemos pouco amor na infância e ansiamos por preencher essa lacuna. Outros porque tivemos muito, acostumamo-nos a isso e não conseguimos viver com menos. As carências da vida adulta não dependem apenas de nossa mãe e das peculiaridades que marcaram a nossa infância. Atribuo essa sensação de incompletude a um acontecimento geral, próprio de toda a espécie humana: a dramática vivência do nascimento, quando nos desgrudamos da mãe e passamos a sentir toda a sorte de inseguranças, desconfortos e desamparo.

O nascer é um "trauma" infantil, que nos marca a todos. Com o passar dos anos, um outro ingrediente entra em cena: o modo como funciona nossa razão. Já pelos 2-3 anos de idade observamos grandes diferenças na reação de crianças expostas ao mesmo fato externo. Diante da morte de um animal de estimação, por exemplo, algumas sofrerão mais que outras. Algumas tolerarão melhor frustrações, contrariedades e dores de todo o tipo; outras reagirão com violência sempre que contrariadas. Algumas serão facilmente conduzidas pelos argumentos; outras serão guiadas mais pela vontade que pela razão. Não há como negar que algumas dessas diferenças dependem de variáveis inatas e não relacionadas com o ambiente ou às vivências que cada criatura tenha tido de enfrentar.

Não desprezo a possibilidade de certas experiências dolorosas terem forte influência sobre a formação da personalidade de algumas pessoas. Isso, em virtude de terem sido expostas a dores muito graves (estupro, pai que se matou, queimaduras sérias etc.) ou por terem um espírito muito delicado (filhos que se tornam tímidos ou gagos em razão da agressividade dos pais, rapazes que evoluem na direção homossexual por serem objeto de humilhação, pessoas que se tornam obsessivas porque não tiveram espaço para a expressão de suas raivas).

O que não me parece correto é generalizarmos esse tipo de reflexão apenas porque nos parece "lógico". E, o que é mais grave, para explicar condições gerais dos setores humanos: inseguranças, carências afetivas e tantos outros conflitos que todos temos. Esse raciocínio equivocado sobre os "traumas" de infância tem acovardado muitos pais, tornando-os incapazes de agir com rigor e determinação na educação dos filhos. 

Não mesmo!

"Não prenda, não aperte, não sufoque. 

Quando vira nó, deixa de ser laço!" 

- Mário Quintana -



quarta-feira, 18 de abril de 2012

A musa de cabelos brancos

O contraste entre o corpo vigoroso e os cabelos cor de prata era sensacional.

- IVAN MARTINS
Minha primeira impressão foi que ela se parecia com Christine Lagarde, a francesa que dirige o Fundo Monetário Internacional. Mas enquanto a economista famosa do Fundo é alta e magra, a mulher à minha frente, na sala de espera do ortopedista, era bem brasileira – pernas grossas, quadris largos – exceto pelos cabelos brancos, na altura do pescoço. Todo mundo sabe que não há brasileiras de cabelos brancos. Não antes dos 70 anos, quando a idade se torna indisfarçável. Mas esta mulher parecia ter menos de 50, era atraente e se movia como alguém muito segura de si. Puxei conversa e falei dos cabelos brancos. Ela riu, vaidosa, e contou que era uma novidade. Disse que as amigas criticaram, algumas pessoas estranhavam, mas ela estava feliz – ela, o marido e os quatro filhos.

Essa história parece de alguma forma tocante? A mim parece. Desde que eu tenho 20 anos, as mulheres à minha volta nadam num mar de tintura. Quando uma delas se rebela e reinventa a própria beleza, na contramão da Wellaton, eu aplaudo. Como jornalista, viajando, me acostumei a ver na Europa mulheres bonitas de cabelos brancos. Bem vestidas, bem tratadas, parecendo muito bem amadas, e de cabelos brancos. Aqui, não. De jeito algum. Como fio branco é anti-higiênico, para esconder meia dúzia deles as mulheres começam a pintar a cabeça inteira desde os 30 anos, senão aos 20 e poucos. Assim se vão, muito antes da hora, o brilho, a textura e a cor natural inimitável dos cabelos. Para quê?
Outro dia fiz esta pergunta a uma jovem amiga que anunciou que iria virar ruiva. Ela é castanha, dona de um cabelo muito bonito. Por que a tinta? “Chega uma hora que a mulher sente uma vontade incontrolável de mudar, de se ver diferente”, ela explicou. “Daí corta ou pinta os cabelos.” Sendo homem, essas explicações me parecem emocionalmente incompreensíveis. Não há em mim o desejo irrefreável de mudar de aparência. E se ele, por acaso, aparecesse, eu rasparia a barba ou faria um corte de cabelo (moderado) no salão da esquina. A vida psíquica e social dos homens parece mais simples.
Mas eu não acho que a questão se resuma a uma diferença de gênero: em Vênus se pinta o cabelo, em Marte (quase) não. Há também uma questão temporal, que diz respeito à auto-imagem e à idade das pessoas envolvidas.
Às vezes eu gostaria de pode explicar para as garotas que “precisam mudar” algumas coisas que a gente só aprende com o tempo. Uma delas, absolutamente visceral, é que a aparência da juventude é uma dádiva insubstituível. As pessoas jovens e saudáveis são bonitas e raramente se dão conta disso. Elas vivem preocupadas com este ou aquele aspecto de si mesmas – o nariz, o cabelo, a cor, o peso -, mas quem olha de fora nem percebe os tais “defeitos”. A beleza delas é como um outdoor de 50 metros plantado no meio do deserto. Chama atenção, atrai os olhos, causa admiração. É uma pena que os jovens preocupados em sofrer (ou em mudar sua aparência) nem notem isso.
Naquele viral famoso, o Protetor Solar, os autores dizem assim: daqui a 20 anos você vai olhar uma foto e perceber como foi bonita, mas então será tarde. Eu digo: por que esperar tanto tempo? Perceba agora, sofra menos e desfrute mais.
A primeira é que as mulheres que começam a pintar o cabelo desde cedo perdem um pedaço da sua própria existência. A beleza do cabelo jovem que começa a mudar de cor (aos 20, aos 30 ou aos 40 anos), é substituída, subitamente, pelo artifício da tinta, com resultados nem sempre felizes. Na pressa de esconder a mudança, as mulheres a escancaram – e perdem as gradações sutis do tempo, que, nos homens, por mera convenção, são consideradas atraentes. Neste momento, eu mesmo estou vendo o meu cabelo ficar acinzentado e acho bonito, provavelmente porque as pessoas ao meu redor dizem que é bonito. Talvez seja hora das mulheres ouvirem o mesmo.Qual a relação disso tudo com os cabelos brancos da minha companheira de consultório? É íntima, por duas razões.
A outra razão é menos sutil.
Ao ver os cabelos brancos da mulher do consultório, eu fui tomado instantaneamente pela beleza daquilo. O rosto maduro, queimado de sol, ficava mais bonito na moldura dos cabelos brancos. O contraste entre os olhos grandes, o corpo vigoroso e os cabelos cor de prata era sensacional. Ela ficava mais bonita daquele jeito, tenho certeza, do que estaria “loira” ou “morena”. Da mesma forma como o George Clooney ou José Maier parecem mais bonitos nas fotos de hoje, grisalhos, do que pareciam antes.
O tempo frequentemente faz bem aos homens e às mulheres. Arredonda as formas, suaviza os ângulos, altera as cores como a luz intensa do meio dia vai dando lugar aos tons da tarde. Uma das tarefas da gente deveria ser descobrir essa luz e a suas novas possibilidades à medida que a vida avança. É lindo ter 20 anos, mas não dura. Não adianta perseguir aquela beleza pelo resto da vida. A musa de cabelos brancos do consultório percebeu isso. E parece feliz. Ela, o marido e os quatro filhos.   
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras Revista Época)


Affffff !!!!


Amor passional


Dicas para lidar os sintomas negativos e prejudiciais na relação amorosa
Como os pais podem ser uma referência positiva para os filhos?

 Diálogo saudável com os filhos exige - "Transmissão de confiança para saber MESMO ouvir o que o filho traz dentro de si, sem preconceitos e pré-julgamentos, encorajando-o a confiar neles"






Respondendo a pergunta do título deste artigo. Agindo com autenticidade. Não há melhor exemplo para os filhos do que presenciar as atitudes dos pais.

Não resolve os pais pregarem somente teoria. Se agirem de modo contrário ao que tentam ensinar, não vai adiantar, pois o filho “percebe” essa desonestidade. O que vale é o filho olhar os pais agirem frente às mais diversas situações de modo verdadeiro.

A família é um miniespelho da sociedade na qual os filhos vivem e viverão. Pais não precisam ser anjos, mas precisam ser sinceros e honestos. Os filhos devem sentir segurança quanto ao “seu conhecimento” acerca dos pais. Pais erram, muitas vezes são injustos (mesmo sem querer), criticam, xingam... mas devem confiar suficientemente nos filhos e conversar bastante a respeito de suas próprias atitudes, tipo: “filho, errei ao pensar....” ou “ filho, fui injusto em tal situação...”.
Os filhos não querem pais santos: isso seria muito difícil de suportar! Eles querem pais humanos que, entre erros e acertos, os respeitem, caminhem juntos com eles, confiem neles e participem dos seus sentimentos, de suas alegrias e de suas frustrações. A vivência em família é o retrato que os filhos irão perseguir para o resto da vida. Família que cultiva um relacionamento sadio contribui para uma estrutura mental sadia do filho.

Cada pessoa tem seu próprio tempo para amadurecer emocionalmente. Na maioria dos casos esse tempo tem que ser respeitado pelos pais. O importante é que os pais não deixem de viver suas próprias vidas em função do filho que ainda não saiu de casa.
Parte dos filhos adultos e já independentes ainda vive na casa dos pais por simples conveniência. Não há idade certa para o jovem sair de casa e constituir família própria. O importante é ele amadurecer, saber escolher um caminho, lutar por uma profissão e pela sua independência econômica.
Dar um passo antecipado, mandar o filho seguir o próprio caminho com medo que ele se encoste, muitas vezes é obrigá-lo a tomar um rumo sem opção.
Agora, se os pais percebem que o filho está realmente “encostado” e se recusa a amadurecer; ser independente por comodismo ou preguiça, então aí sim, os pais deverão, em primeiro lugar, ter um diálogo franco com esse filho e mostrar que a preocupação deles se deve às dificuldades que ele enfrentará na vida, se não souber se “virar”. Em nenhum momento esse filho deve sentir que é um peso, pois isso pode se transformar em uma chantagem emocional sombiótica prejudicial à relação de ambos. Se a conversa não surtir efeito, então é importante através de terapia ajudar esse filho a encontrar seu caminho com mais amadurecimento.

Vida adulta 

Quando adulto, esse filho irá se espelhar no que presenciou no convívio em família. Ele tenderá a repetir padrões aprendidos nessa convivência.
Se o pai batia na mãe e/ou não respeitava os filhos, será difícil para esse pai, hoje, opinar de maneira positiva sobre uma atitude sadia em relação ao seu filho.
No caso de uma família desestruturada, é bem provável que o filho criado nela, precise de acompanhamento terapêutico para construir uma nova realidade sobre uma família sadia e com possibilidade de ser feliz.

A família é o primeiro referencial de vivência do filho. Por isso, ela tem que ser composta principalmente por laços de verdadeira confiança incondicional entre seus membros, de respeito mútuo, de real honestidade, de muito diálogo, de falta de preconceitos e de pré-julgamentos. Os pais precisam saber ouvir. Quando digo ouvir, quero dizer OUVIR DE VERDADE, ouvir o que vem de “dentro do filho”, encorajando-o a confiar neles.

por Tatiana Ades

Tenha fé!


terça-feira, 17 de abril de 2012

Os homens que não amam as mulheres


Pode parecer incrível para muitos de nós, que vivemos em harmonia negociada com o outro sexo. Mas, no século XXI, ainda existe ódio sexista, latente ou escancarado. O que aconteceu na semana passada com a publicitária paulistana Renata Gervatauskas, de 35 anos, é um triste exemplo disso. Renata escreveu um post para o blog Mulher 7x7, em epoca.com.br. Contou ter desistido de um namorado potencial ao escutar dele: “Só falta dizer que lava, passa e cozinha bem. Vai ser a mulher perfeita. Aí, eu caso”. Ela não gostou da “brincadeirinha”. Eu também não gostaria. Acharia o cara um bobo.
Em seu texto, Renata defende a licença-paternidade por seis meses, concedida recentemente no Brasil pela primeira vez a um homem que perdeu a mulher no parto. É um precedente positivo, escreve Renata: “A gente ainda confunde o instinto materno com a obrigação de cuidar sozinha das crias”. A reação da maioria dos homens internautas foi um ataque pessoal, na tentativa de humilhar as mulheres em geral. “Foi um festival de ofensas gratuitas, que serviu como espelho de uma sociedade doentia”, disse ela.
Um internauta escreveu: “Feminismo já é um lixo social, se exagerado então fede”. “Aprendam, animais”, escreveu outro. “Vocês jamais irão se igualar aos homens. Perguntem às mães solteiras e independentes de hoje, que têm por volta de 35 anos, se elas não mudariam o jeito f... e independente delas se pudessem voltar no tempo. Nós, homens, não queremos resto dos outros. Nós queremos mulheres que nos respeitem como líderes do lar.”
“Qual é o problema de a mulher de hoje fazer tarefas domésticas que o restante fez ao longo de toda a história da humanidade?”, pergunta um outro. “Vocês reclamam de barriga cheia. As mulheres não tinham máquina para lavar roupas, esfregavam tudo na mão mesmo e não reclamavam da dependência dos seus maridos, porque elas sabiam bem do papel destinado a elas. Vocês hoje só têm o trabalho de colocar sabão em pó e depois colocar a roupa no varal. Feministas: vão tomar no olho do c…”
Esses comentários, alguns feitos na covardia do anonimato e outros assumidos com o próprio nome, não fazem jus à maioria dos homens atuais, que desejam casar com uma mulher inteira e educar os filhos plenamente. Mas o ódio nessas reações explica o absurdo número de estupros, a violência doméstica, o assédio moral, ainda hoje. Explica as Eloás da vida.
É incrível que, em pleno século XXI, ainda exista ódio sexista, latente ou escancarado  
Sou contra a vitimização das mulheres. Não acho as mulheres mais tristes que os homens – embora a gente reclame mais. Talvez tenhamos nos acostumado a perceber que nada cai de graça no nosso colo. Precisamos reivindicar, refletir e discutir. Não acho que o feminismo tenha traído a nenhuma de nós. Movimentos de emancipação trazem conquistas, não são um manual de felicidade, mas de liberdade. Liberdade para escolher o que é melhor para cada uma. Não somos um “blocão” homogêneo. O risco é trair a nós mesmas e aos homens, se continuarmos a criar nossas filhas como “princesinhas” e nossos filhos como “super-homens”. Esses papéis só existem na ficção, não cabem numa sociedade moderna, e definem, desde a infância, expectativas irreais para elas e para eles. Que geram frustração mais tarde.
Há 180 anos, em 1832, uma jovem do Rio Grande do Norte, Nísia Floresta Brasileira Augusta, de 22 anos, publicou Direitos das mulheres e injustiças dos homens. Ela casou aos 13 anos e abandonou o marido pouco depois. Voltou à casa dos pais. Sofreu com o estigma. Era fluente em várias línguas e instruída, num tempo em que mulheres no máximo sabiam ler e escrever. Teve dois filhos com um segundo companheiro. Um dos trechos de seu livro: “Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles, homens”.
Uma coisa é a mulher decidir ser mãe e dona de casa em tempo integral. Se assim é feliz, e seu companheiro também, parabéns. Sorte da mulher que, hoje, com recursos e instrução, pode decidir seu destino. Pode tentar ser bem-sucedida no trabalho, no amor e na família – um desafio duro, porém fascinante. Pode decidir quando engravidar. Pode decidir não ter filhos – e é o cúmulo que muitos a apedrejem por isso. Pode decidir não casar. Pode decidir se separar sem que a discriminem. Pode estudar, pode se apaixonar várias vezes, pode chegar à Presidência da República. É um desconsolo imaginar que ela ainda pode ser estuprada, discriminada, agredida e assassinada por homens que odeiam as mulheres.
- Ruth de Aquino -

Aquele maldito silêncio


Por que casais em crise não conversam enquanto comem.

IVAN MARTINSS

Sempre que eu vejo a cena ela me constrange: o casal come em total silêncio no restaurante, praticamente sem olhar um para o outro. Tendo passado por algumas crises de relacionamento, eu imagino que aquelas duas pessoas não têm mais nada a dividir além da conta. Elas simplesmente sentam lá, uma diante da outra, e se alimentam como se estivessem sozinhas. O que de fato estão. 

Há pessoas, sobretudo mulheres, que acreditam na comunicação sem palavras. Em certos momentos mágicos, elas dizem, as pessoas apaixonadas são capazes de caminhar lado a lado, ou simplesmente estar uma com a outra, por longos períodos, sem abrir a boca. Estariam conectadas por um sentimento tão intenso que tornaria toda palavra desnecessária.

Imagino que esses momentos especiais realmente existam (fora daqueles densos minutos de silêncio depois do sexo, quando só fala quem está com urgência incontrolável de pedir um táxi para ir embora...), mas eu estou 100% seguro de que eles não acontecem ao redor da comida.

Por alguma razão ancestral, o ato de comer invoca uma felicidade gregária e primitiva, que precisa ser compartilhada por palavras – exceto quando as pessoas envolvidas já dividem uma porção invisível de tristeza, ressentimento ou profunda indiferença. Nestes casos, o silêncio se impõe de forma incontornável. Aos grupos, às famílias e, sobretudo, aos casais.

É por isso que eu, quando saio para comer, gosto de ouvir o som da voz humana vindo do outro lado da mesa. Uma mulher falando de maneira entusiasmada reafirma, para mim, várias coisas positivas ao mesmo tempo: que ela está bem, que ela continua conectada comigo e que ela e eu, juntos, ainda somos capazes de conjurar um momento de cumplicidade. É como constatar que o prato da relação não está vazio.

A comida é tão importante na vida emocional que, mesmo sem ser um grande comilão, eu posso me lembrar de vários momentos decisivos presenciados por garçons – ou transcorridos na cozinha de alguma casa.

Há brigas antigas que, anos depois, ainda me envergonham. Há a memória luminosa de diálogos carregados de sensualidade e expectativa. Há o som de uma risada que me fez querer beijar instantaneamente. Há a lembrança dos olhares e a sensação furtiva de corpos se tocando sob a mesa. Há, claro, os malditos silêncios, inúmeros, dos tantos encontros que deram errado ou das relações que esfriaram sem palavras sobre a mesa.

Quando coloco essas coisas juntas, elas parecem sugerir que comer na companhia de alguém constitui um teste de afinidade, um termômetro.

Um casal antigo que conversa com interesse na hora do jantar, mesmo diante da TV ligada, ainda deve estar na mesma sintonia. Um casal recente que divide feliz a feijoada de sábado provavelmente teve uma noite digna de ser lembrada. Um casal que sai pela primeira vez e consegue embarcar numa conversa apaixonada diante da sopa fumegante está na direção correta. Aqueles que cozinham juntos, rindo e bebendo, talvez sejam os mais felizes - provavelmente terão, depois da mesa, uma cama ainda mais gostosa.

Só não me peçam, por favor, para apreciar a magia do silêncio durante a comida. Essa percepção está reservada às mulheres profundamente intuitivas e seus parceiros sem palavras. Da minha parte, prefiro comer ouvindo uma mulher ansiosa me contando o seu dia repleto de detalhes cintilantes. Pode não ser a coisa mais misteriosa do planeta, mas é real. De alguma forma subjetiva me alimenta e me faz feliz – como um bom prato de comida, que esquenta o estômago e aquece o coração.


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