terça-feira, 29 de novembro de 2011

Meu filho tem coisas demais!


Meu filho tem coisas demais!

Se seu filho não sabe mais o que fazer com os presentes, descubra o que fazer


Quase todo dia seu filho ganha alguma coisa, seja uma bala, um adesivo ou um carrinho. Agora, de tantas coisas que tem, nem acha mais graça nos novos presentes e está sempre querendo mais. Isso é comum, e controlar seus impulsos consumistas pode fazer muito bem – a você e a ele

Por Luciana Alvarez, mãe de Marcelo

Nosso filho é o primeiro neto, dos dois lados. Ele possui tudo o que uma criança jamais poderia desejar, em termos de roupas, livros e brinquedos. Ele se comporta muito bem, e  nunca choraminga nem tem crises de birra. Mas nós tememos que, se não lhe dissermos a quantidade certa de ‘nãos’, ele acabará ficando mimado e insuportável. A dúvida, exposta no livro O Que Esperar Dos Primeiros Anos (Ed. Record), pode estar também te preocupando.

Que atire a primeira pedra o pai ou mãe que nunca sentiu aquela vontade irresistível de comprar um presentinho extra para o filho. Ou que não tenha de se segurar toda vez que passa por uma vitrine de brinquedos – e, claro, de vez em quando não se segura. Mas então avós, tios, padrinhos, amigos, todo mundo acaba cedendo ao desejo de dar um agradinho fora de época. Como resultado, as crianças acumulam mimos e acabam se tornando proprietárias de um espólio que simplesmente não dão conta de curtir.

“Embora o garoto que tem tudo não seja necessariamente mimado, aquele que tem mais do que necessita ou consegue usar, vê-se frequentemente assoberbado (com tantos brinquedos, ele não sabe o que fazer) ou frustrado (ele tem tantos brinquedos, que esses se tornam uniformemente aborrecidos)”, explica o livro. Claro, ganhar coisas demais ou ter certeza de que vai receber o que quer acaba com a graça da surpresa e da novidade.

Mas calma! As autoras do livro, Arlene Eisenberg, Heidi Murkoff e Sandee Hathaway afirmam que dizer sim não é um erro. Essa palavrinha mágica é problema quando dita pelos motivos errados – para manter a criança feliz, evitar confrontos, satisfazer os desejos não atendidos de nossa própria infância ou compensar o tempo que os pais não ficam com o filho. Então, a questão não é apenas dizer “sim” ou “não” para os pedidos de uma criança. E, sim, perguntar-se “por quê” e explicar o porquê.

Coleção de carrinhos

Aos 7 anos de idade, Pedro Henrique possui armários repletos de carrinhos. A mãe, Suzana Brayner, estima que sejam por volta de 1 mil e reconhece que cruzou a linha vermelha do consumismo. Por isso mesmo está se esforçando para mudar (e fazendo tudo diferente com seu mais novo, Theo, de 1 ano e meio). “O Pedro curtia muito ganhar presente fora de época. Toda vez que ia na padaria ou no shopping, a gente sempre comprava mais algum. É tão baratinho”, conta. O problema se agravou quando o casal viajou e trouxe para Pedro, na época com 4 anos, uma mala inteira de carrinhos.

Suzana decidiu dar um basta ao ver que o excesso causava sofrimento ao filho. “Um só não era suficiente, ele sofria se não ganhasse uma mala de brinquedos”, lembra. A mãe pediu colaboração da família inteira para conseguir que Pedro receba presentes só em datas especiais – meta que ainda não foi 100% alcançada, mas está a caminho. “Todo mundo dava presente. Quando dormia na casa da minha sogra, na manhã seguinte ganhava dois ou três carrinhos.”

Lógico que Pedro não reagiu bem aos primeiros nãos, mas em vez de amolecer o coração da mãe, a birra inicial deu mais motivação a Suzana. “Quando vi a reação absurda por causa de uma bobagem pensei: isso não é saudável.” Após meses de muita conversa o menino já aceita as novas regras. Os pais também tiveram que quebrar a antiga roda-viva de consumo – reforçada pela TV, passeios em shoppings e colegas de escola. “Nossos programas agora são colocar o pé na terra, curtir um pôr-do-sol, brincar com bichinhos. Para o Theo, até hoje quase não comprei nada: ficamos sócios do Clube do Brinquedo, onde a gente aluga brinquedos e troca quando ele se cansa.”

Procurando alternativas

O Clube do Brinquedo, ao qual Suzana recorreu, foi criado exatamente para os pais que fogem do consumismo excessivo de brinquedos, que acabam sendo usados por pouco tempo. O site faz aluguel de brinquedos de um jeito bem simples. Gastando R$ 75 por mês, o cliente recebe dois brinquedos em casa por mês, podendo trocá-los por outros ou apenas devolvê-los. Os planos custam mais caro conforme a quantidade de brinquedos que o cliente quiser alugar.

Também existem algumas ações esporádicas de troca de brinquedos. Em setembro deste ano, por exemplo, o grupo Boa Praça e o Projeto Criança e Consumo organizaram um evento público em São Paulo, convocando as crianças a levarem brinquedos que não usam mais e trocar com os amigos. Além de reciclar os produtos que a criança têm no armário e promover a socialização, quando ela percebe que os amigos estão interessados naqueles brinquedos que nem queria mais, isso desperta novamente seu interesse.

Outras famílias recorrem à doação: nos aniversários, a cada presente novo, a criança escolhe um dos velhos para doar. Além de solidária, essa iniciativa mantém uma quantidade razoável de brinquedos no estoque da criança, e renovável a cada ano (ou mais, se o Natal e o Dia das Crianças entrarem no jogo).

Achar um ponto de equilíbrio do consumo saudável desafia a maioria das famílias. “Em primeiro lugar é bom acalmar os corações dos pais e mães: não é mesmo uma tarefa simples. Vivemos em uma sociedade de consumo, as crianças são bombardeadas com as mensagens do mercado… Mas não precisamos ser consumistas”, acredita Gabriela Vuolo, mãe de Mateo e coordenadora do projeto Criança e Consumo do Instituto Alana. Segundo ela, o consumismo fica caracterizado toda vez que se compra em exagero e o desnecessário. O que é exagero ou desnecessário cabe ao bom-senso dos pais julgar.

Os pais, recomenda Gabriela, devem começar dando o exemplo e parar de comprar coisas desnecessárias para si – e também doar o que já está sobrando dentro de casa. Depois, podem ajudar os filhos a refletir sobre o consumo, pois crianças não são capazes de fazer isso por conta própria. Ajudar a refletir significa perguntar: você precisa mesmo disso? Precisa ser agora? Esse é o melhor item? Você já não tem algo muito semelhante?

Perdendo a graça

Nada disso quer dizer que os pais devam abrir mão de comprar presente de Natal e aniversário, ou premiar uma atitude positiva. “Presentear é maravilhoso, todo mundo adora, só deve ser feito com critério. Dar presente todo dia faz com que a criança não os valorize – isso é o exagero”, diz a coordenadora do Alana.

Pois foi justamente ao perceber que Teresa, de 2 anos e 9 meses, recebia um objeto novo “todo dia” que Luciana Loew começou a se preocupar. “Um dia uma avó passa em casa e deixa um presentinho, no dia seguinte saio com ela e compro gibis, depois vem a outra avó e traz mais alguma coisa nova. Senti que estava ficando hipócrita na questão do consumo”, conta.

A mãe diz que a menina não fica pedindo presentes a toda hora, mas agora, quando pede, Luciana recomenda que ela espere, guarde na memória o que deseja, e peça de novo em uma data especial. “Nossa geração não ganhava presente do nada. Para quem ganha sempre, o Natal e o aniversário perdem a magia.” E não deu outra: um dia, Teresa ganhou um livro da madrinha, mas já estava tão entretida com outro brinquedo novo, que nem olhou para o presente.

Para a psicanalista Vera Iaconelli, coordenadora do Instituto Gerar, mãe de Gabriela e Mariana, mais do que estragar o encanto das datas festivas, ganhar presentes sempre pode paralisar as crianças. “O que move o sujeito é a falta. É a fome que te faz buscar comida, é a saudade que te faz procurar um amigo”, exemplifica Vera. Recebendo tudo de mão beijada ao primeiro pedido, a criança deixa de desenvolver estratégias para conquistar o que deseja. “Ir atrás do desejo é muito importante no desenvolvimento da criança”.

Outro comportamento prejudicial por parte dos pais é dar objetos antes mesmo que haja um pedido, diz Vera. Quando o adulto se antecipa à formulação do desejo, a criança pode ter problemas para formar a própria identidade. “Fica parecido com o funcionamento do bebê no útero: não tem fome, frio, nenhum desconforto. A criança nem sabe o que quer ou não. Mas é ao responder o que deseja que a criança vai se descobrindo, sabendo quem ela é”, afirma.

A psicanalista ressalta ainda que nem todos os desejos podem ser supridos por coisas. “É algo de nosso cultura achar que ter certo carro, apartamento, ou cabelo nos faria felizes. Mas o objeto não tem capacidade de satisfazer plenamente.” Ou seja, pense em presentear seu filho também com um programa diferente em família – pode ser um passeio a um lugar novo, uma uma tarde fazendo esculturas de argila, ou cozinhar juntos, por exemplo.

Pais inseguros

Mesmo que os amigos da escola, do clube ou qualquer outro grupo social vivam de forma muito consumista, as crianças são capazes de entender que sua família tem outros valores se os pais forem coerentes e derem o exemplo. Os pais não precisam temer o famoso: "mas todo os meus amigos têm!"

A psiquiatra Ivete Gattás, mãe de Vitória, Lígia e Henrique, e coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo, explica que os pais têm mais poder do que pensam. “Vejo muitos pais inseguros, temem que os filhos se sintam diminuídos se não comprarem o que os colegas deles têm. Mas os valores em casa são fortes o suficiente para responder à pressão social e da mídia.”
Segundo Ivete, há pais que compram tudo porque temem a reação dos próprios filhos, não querem desagradá-los nunca. “Muitos ficam reféns. Mas o pai é o responsável, cabe a ele as decisões, isso é educar.” Ao querer acima de tudo a amizade, os pais deixam de ensinar hierarquia e por isso tantas crianças e jovens não respeitam nenhum tipo de autoridade – como  tanto se queixam os professores. “Ao receber tudo, a criança entende a seguinte mensagem: eu sou o máximo, merecedora de todos os prêmios só pelo fato de existir. O mundo me deve.” E, claro, se crescer pensando assim, vai descobrir da pior maneira que, não, o mundo não deve.
REVISTA PAIS E FILHOS / 

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